Considerações sobre a automutilação e tentativas de suicídio na adolescência

Por:Circuito PSI
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19

May 2017

Tem sido frequente, nos consultórios médicos e de psicologia, a procura de tratamento para adolescentes que apresentam atos repetitivos considerados destrutivos (tal como queimar o corpo), e/ou condutas que podem atentar contra a própria vida (cortar os pulsos). Em virtude destes quadros, temos ainda o desespero de pais que se sentem incapazes e/ou impotentes de intervir ou até mesmo de encontrar um diálogo possível com os filhos adolescentes.

Existem vários estudos sobre automutilação e suicídio na adolescência. Não entremos no mérito da questão, pois a automutilação pode ter ou não intenções suicidas (existem estudos que apontam que adolescentes se cortam também para fazer parte de grupos específicos). Além do mais, o ato de cortar-se, queimar-se, auto agredir-se ou ferir o corpo de alguma forma pode servir de alivio emocional ou prazer para uma angustia incalculável.

O problema acontece quando tais atos emergem como a única resposta para uma deflagrada questão emocional, que é vivida pelo adolescente e que este não encontra outro ponto de saída. Comportamentos tais como: evitar o contato pessoal e/ou evitar o diálogo e a experiencia; podem sugerir que algo não vai bem e que precisa de resposta imediata. A pratica da automutilação pode representar um “mascaramento” de sentimentos e de emoções e funcionar como válvula de escape, ativada no próprio corpo.

O corpo, como saída para o sofrimento, pode surgir como algo a ser controlado (internamente) para aquilo que não pode ser suportável (mundo externo). Ou seja, o adolescente encontra a saída pelo não-dizer. E uma vez que as palavras e o diálogo não importam mais, ou são insuficientes, os pais passam a deparar-se com sua própria falência.

Sabemos que no corpo de um adolescente localizam-se tensões orgânicas que envolvem traços pulsionais intensos, normais no desenvolvimento humano. Para além destas questões fisiológicas e pulsionais, o adolescente vive ainda processos de individuação, diferenciação e identificação com o outro e a sociedade. No entanto, as soluções, encontradas outrora, muitas vezes não funcionam mais e os adolescentes deparam-se com o vazio e o extremo do corpo. Referencias nas relações interpessoais podem ser substituídas por organismos virtuais e grupos de compartilhamento entre iguais.

As juventudes não convencionais dos dias de hoje podem ansiar por movimentos, projetos e estilos de vida alternativo aos dos pais. Há pouco espantamo-nos com o jogo “Baleia Azul” (Blue Whale)[1], que coloca o jogador para seguir regras envolvendo a automutilação do corpo e, em consequência, o suicídio. Como se não bastasse, temos ainda epidemias diagnosticas globalizadas, tais como: a depressão, o bullying e a falta de controle no universo virtual.

Independente de qual seja a saída encontrada pelo adolescente, o mais importante aqui é atentarmos para as mudanças relativas aos padrões e as regras sociais de convivência em sociedade. A adolescência é um período que envolve conflitos e também a afirmação da própria personalidade. O adolescente que se automutila pode apresentar dificuldades tais que precisem de uma avaliação criteriosa e por profissionais qualificados. Assim, a psicoterapia é de grande importância, tanto na construção de uma saída sólida, que não provoque mais sofrimento, quanto na expressão como forma significativa de criar laços.


[1] Especula-se que o nome do jogo faça referência a espécie de Baleia Azul, presente nos Oceanos Atlântico, Pacifico, Antártico e Índico, que costuma encalhar nas praias, por vontade própria, para morrer.

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